[News] Betty Milan lança a obra Baal pela editora Record na companhia dos maiores críticos literários do país
Vai embora, a mãe me disse, com os olhos incendiados pela
determinação.
— Vai já.
— Como?
— Como der... a pé, com o burro, põe a sela e vai.
— Para onde?
— Não sei. Só sei que aqui não tem mais jeito. Você está à mercê
do exército inimigo. O seu amigo já caiu na mão deles. Por que você acha que
isso não pode te acontecer? Se você não for embora, Omar, eu me mato. Perdi seu
pai. O risco de te perder, não posso correr.
Impossível contrariar a ordem de Hani. Todos devem a vida à mãe,
eu devo duplamente.
O trecho da obra Baal, da renomada escritora Betty Milan,
publicada pela Record, foi citado na noite de terça-feira (18/06), no
lançamento que contou com leitura para o público e também com um incrível
debate entre a psicanalista e o respeitado jornalista e crítico literário
Manuel da Costa Pinto.
As questões discutidas permearam a imigração, o desenraizamento
e as pesquisas da autora para construção de um verdadeiro registro dos
processos vividos por alguém que deixou sua terra e imergiu em um novo mundo.
Ainda, a escritora foi prestigiada pelo crítico Roberto Schwarz
e pelo Consul do Líbano, Rudy El Azzi, que marcaram presença na noite de ontem
na Livraria da Vila, no Jardins - São Paulo.
Sobre a obra: Baal é uma história familiar. O patriarca e personagem
principal, Omar, narra um drama sempre atual: o da imigração. No final do
século XIX, quando seu melhor amigo é capturado por uma milícia para servir no
exército inimigo, Omar é forçado a largar do seu país no Oriente Médio. Ao
fugir da aldeia, coração partido, jura que voltará para buscar a família e a
noiva. Embarca para os trópicos, atravessa o oceano e começa a vida na
mascatagem, como os conterrâneos que emigraram para o Novo Mundo. Valendo-se da
sua força física e da inteligência, vence as dificuldades, torna-se um próspero
atacadista e constrói um palácio, Baal, «uma jóia do Oriente no Ocidente», para
sua filha única, Aixa, e a família dela. Só que, depois da sua morte, os
descendentes dilapidam a fortuna. O patriarca, que morreu sem poder descansar
em paz por causa dos conflitos familiares, vê a guerra do país natal se repetir
no país da imigração. Pervertidos pelo dinheiro e com medo do empobrecimento,
os netos resolvem demolir Baal para vender só o terreno e fazer com o palácio «
o negócio mais rentável ». Tiram a mãe já idosa do lugar onde ela sempre morou
e a transferem com a fiel servidora e o cachorro para um cubículo. Indignado
com o comportamento dos netos, Omar os culpa por não se darem conta da sua luta
e do alto custo do berço de ouro que lhes proporcionou. Associa a crueldade
deles à vergonha das origens. Diz que, além de xenófobos, são desmemoriados, «
sucumbiram no fundo negro do esquecimento». Para se opor a isso, ele rememora a
história. A rememoração o obriga, no entanto, a reconhecer os seus erros. Não
se empenhou em transmitir o que aprendeu na travessia e, por preconceito em
relação às mulheres, não formou a filha, para ser sua sucessora. Se valeu dela
para animar Baal, o seu pequeno império tropical, e não para que o palácio continuasse
a existir depois da sua morte e se tornasse o que deveria ter sido, um memorial
da imigração.
Ficha técnica: Editora: Record | Assunto: romance brasileiro |
Preço: 49,90 | ISBN: 978-85-01-11635-2 | Edição: 1ª edição, 2019 | Tamanho:
13,6 x 21 | Páginas: 224
Sobre a autora: Betty Milan é paulista, autora de romances,
ensaios, crônicas e peças de teatro. Além de publicadas no Brasil, suas obras
também circulam com selos de França, Argentina e China. Colaborou nos
principais jornais brasileiros e foi colunista da Folha de S.Paulo, da Veja e
da Veja.com. Trabalhou para o Parlamento Internacional dos Escritores, sediado
em Estrasburgo, na França. Foi convidada de honra do Salão do Livro de Paris em
1998 e em 2015. Em 2014, representou a literatura brasileira contemporânea na
Feira Internacional do Livro de Miami (EUA). Antes de se tornar escritora,
formou-se em medicina pela Universidade de São Paulo, especializou-se em
psicanálise na França com Jacques Lacan e fundou o Colégio Freudiano do Rio de
Janeiro.
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